quarta-feira, 18 de julho de 2012

AGU diz que governo pode intervir em área indígena



Portaria afirma que União não precisa consultar índios para decidir questões
Portaria segue as diretrizes do STF no julgamento da reserva Raposa/Serra do Sol, diz instituição

Portaria da Advocacia-Geral da União publicada ontem no "Diário Oficial da União" prevê que o poder público faça intervenções em terras indígenas sem a necessidade de consultar índios ou a Fundação Nacional do Índio.
Segundo a AGU, em respeito à "soberania nacional", será possível construir bases militares, estradas ou hidrelétricas em áreas demarcadas "independentemente de consulta às comunidades indígenas envolvidas ou à Funai".
A Constituição e convenções internacionais ratificadas pelo Brasil, como a Declaração da ONU para os Povos Indígenas, preveem consultas aos índios sobre qualquer atividade que os afetem.
O artigo 231 da Carta afirma: "O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos [...] em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do Congresso, ouvidas as comunidades afetadas".
A ausência de consulta aos indígenas é hoje uma das principais queixas na construção da usina de Belo Monte (PA). Esse é o principal argumento do Ministério Público para paralisar a construção da hidrelétrica.
A portaria também veda a reavaliação do tamanho de terras indígenas demarcadas, salvo quando ficar comprovado erro jurídico no início do processo de demarcação.
Em outro artigo, a norma da AGU diz que o "usufruto da riqueza do solo, dos rios e dos lagos" em terras indígenas "pode ser relativizado sempre que houver interesse público da União". Já a Constituição, no artigo 231, diz que os índios têm "usufruto exclusivo" sobre essa riqueza.
Segundo a AGU, a portaria tem o objetivo de "uniformizar" a atuação jurídica do Executivo seguindo as diretrizes estabelecidas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no emblemático julgamento que o tribunal fez, em 2009, da demarcação da reserva Raposa/Serra do Sol, no norte de Roraima.
À época o STF não estipulou que o caso devesse valer para todas as demais reservas do país, mas a AGU entendeu que seu exemplo era útil para criar "parâmetro" e "segurança jurídica", como disse à Folha o ministro Luís Inácio Adams. "A portaria basicamente repete e respeita a decisão do STF", afirmou.
Para Raul do Valle, advogado do ISA (Instituto Sócio Ambiental) especializado em questões indígenas, a portaria tem um "gene autoritário" e que certamente gerará distorções: "O texto diz claramente que não se deve respeitar o direito dos índios". Adams afirma que a portaria da AGU "defende e respeita os índios", mas, "se for para escolher um valor, deve prevalecer a defesa nacional".